Ontologia do Gótico
O vampiro é frequentemente caracterizado como um undead – um não morto –, pois só é em razão daquilo que lhe foi negado. Ele tem um olhar magnético que dobra qualquer mortal à sua vontade, mas há uma indiferença a tudo o que é lugar comum de desejo para os mortais. O que pode ser negado a um ser a quem nada além de sangue e trevas parece interessar?
Conde Drácula (Tod Browning, 1931) diz que “há coisas esperando pelo homem que são piores do que a morte”. E isso diz algo sobre sua angustiosa condição de existência.
Freud em Além do Princípio do Prazer (1920) talvez concordasse com uma inversão dessa frase, já que pensa haver no homem uma pulsão para a morte, um movimento inconsciente de anseio por um estado livre de tensão, anterior à vida consciente. Não é paradoxal que uma consciência queira se aniquilar, se lançar em um estado que não conhece, e até teme? Se não conhece, como o almeja? É possível desejar o que não se compreende?
Drácula responde:
“A aranha tecendo sua teia para a mosca desprevenida […] Sangue é vida.”
Espelhos não refletem sua imagem, e isso faz com que o identifiquem. Ele é denunciado por sua ausência: “A força de um vampiro está no fato de que as pessoas não irão acreditar nele”.
A existência de um vampiro é tão frágil quanto um sonho. Para continuar sendo um undead, deve estar vinculado ao solo de sua origem, onde foi impedido de morrer – para sempre vinculado à ausência de sua própria morte. Não à vida, não à morte: ao abismo.
Talvez ele não suporte encarar a própria falta de si em um espelho, mas possa ser testemunhado em contraste com os vivos:
“Ouça-os. Filhos da noite, que música eles fazem!”
Ao se lançar no que não pode ser conhecido, uma consciência deseja ser outra coisa que não ela mesma: deseja o fim de si.
Desse deslize, algo se ergue: ele é o ser que surge na fissura da consciência ausente de si, na noite.
Seu reflexo não existe, pois o destruiria. Olhar para si mesmo seria ser conhecido.
Mas ele é o próprio desconhecido, a quem uma consciência desprevenida deseja conhecer.


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